{"id":1377,"date":"2023-12-19T10:28:30","date_gmt":"2023-12-19T10:28:30","guid":{"rendered":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/?p=1377"},"modified":"2025-10-25T10:33:32","modified_gmt":"2025-10-25T10:33:32","slug":"costa-oceanica-do-amapa-avanco-do-mar-desloca-comunidades-e-desafia-cientistas-e-autoridades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/costa-oceanica-do-amapa-avanco-do-mar-desloca-comunidades-e-desafia-cientistas-e-autoridades\/","title":{"rendered":"Costa oce\u00e2nica do Amap\u00e1: avan\u00e7o do mar desloca comunidades e desafia cientistas e autoridades"},"content":{"rendered":"<p>De um lado, o Oceano Atl\u00e2ntico. De outro, o maior rio de \u00e1gua doce do mundo. No meio, ilhas que bailam. Na foz do rio Amazonas, no extremo norte do Brasil, um fen\u00f4meno considerado natural at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s passou a desafiar diariamente a comunidade cient\u00edfica, autoridades e moradores do Arquip\u00e9lago do Bailique. O duelo entre o rio e o mar, antes sazonal, tem se agravado com o aquecimento global. O mar avan\u00e7a e derruba o que encontra pela frente. A \u00e1gua, antes doce, agora \u00e9 salobra por per\u00edodos cada vez mais longos, impactando a vida de 13 mil habitantes das oito ilhas.<\/p>\n<p><strong>&#8220;\u00c9 preciso lembrar que n\u00f3s estamos na foz do maior rio do mundo, com uma din\u00e2mica intensa de frente com o oceano. S\u00e3o dois tit\u00e3s, e quem estiver nesse espa\u00e7o aqui estar\u00e1 sujeito a essa din\u00e2mica extrema&#8221;, resume a ge\u00f3loga Valdenira Ferreira dos Santos, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Cient\u00edficas e Tecnol\u00f3gicas do Estado do Amap\u00e1 (IEPA). Ela diz que h\u00e1 dois fen\u00f4menos atingindo o arquip\u00e9lago, a eros\u00e3o (erroneamente chamada de terras ca\u00eddas) e a intrus\u00e3o salina, e n\u00e3o h\u00e1 como saber precisamente as rela\u00e7\u00f5es entre ambos.<\/strong><\/p>\n<p>Sem dados hist\u00f3ricos confi\u00e1veis de monitoramento do avan\u00e7o do mar, Valdenira criou o <strong>Observat\u00f3rio Popular do Mar,<\/strong> uma iniciativa com <strong>participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria<\/strong> para reunir informa\u00e7\u00f5es a fim de entender o que est\u00e1 acontecendo e compreender como o que ocorre no Bailique se relaciona com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. &#8220;Hoje, podemos dizer que (essa rela\u00e7\u00e3o) \u00e9 uma possibilidade, mas se voc\u00ea me perguntar qual a evid\u00eancia cient\u00edfica efetivamente concreta de medi\u00e7\u00f5es, isso n\u00e3o existe. O que existe s\u00e3o observa\u00e7\u00f5es&#8221;, afirma a ge\u00f3loga.<\/p>\n<p><strong>Essas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o dos pr\u00f3prios moradores das ilhas,<\/strong> que t\u00eam reportado que a \u00e1gua do rio est\u00e1 ficando salgada cada vez mais para dentro do continente e cada vez mais cedo. O per\u00edodo de estiagem no chamado inverno amaz\u00f4nico vai, historicamente, de setembro a novembro. &#8220;Em algum momento (desse per\u00edodo), a \u00e1gua sempre ficava salobra. Esse processo sempre aconteceu, mas as informa\u00e7\u00f5es que obtivemos em entrevistas sistematizadas com as comunidades indicam que esse processo parece estar avan\u00e7ando para dentro do continente&#8221;, diz a pesquisadora do IEPA.<\/p>\n<p>Bruce Andrade, 43, \u00e9 dono de um com\u00e9rcio na Vila Progresso, principal comunidade do Bailique, e sabe exatamente do que a pesquisadora est\u00e1 falando. Constru\u00edda em abril de 2019, a Casa Andrade viu a eros\u00e3o engolir 50 metros de margem e chegar rapidamente \u00e0 sua porta. Em breve, o com\u00e9rcio ter\u00e1 de mudar para uma nova instala\u00e7\u00e3o constru\u00edda atr\u00e1s da atual. &#8220;Duraria mais 15 anos aqui s\u00f3 dando reparo, mas eu vou gastar mais 200 mil reais para poder construir l\u00e1 atr\u00e1s. E n\u00e3o tem ajuda de ningu\u00e9m&#8221;, reclama o comerciante.<\/p>\n<p>Ele nasceu e cresceu na ilha, migrou para Macap\u00e1 e retornou em 2018. &#8220;Me criei aqui sem problema nenhum com \u00e1gua, e quando voltei eu nem sabia que a \u00e1gua estava salobra.&#8221;<\/p>\n<p><b>Evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/b><\/p>\n<p>As imagens de sat\u00e9lite da regi\u00e3o do Bailique comprovam que, ao longo de 33 anos, a din\u00e2mica hidrol\u00f3gica na costa do Amap\u00e1 se alterou significativamente. Entre 1990 e 2023, como mostra o v\u00eddeo abaixo produzido pelo IEPA, houve um assoreamento na foz do rio Araguari, que passou a desaguar no rio Amazonas por meio de dois canais que surgem exatamente em frente ao Bailique.<\/p>\n<p>Para o engenheiro Alan Cavalcanti da Cunha, professor da Universidade Federal do Amap\u00e1 (UNIFAP) e p\u00f3s-doutor em fluxos hidrol\u00f3gicos entre ecossistemas aqu\u00e1ticos tropicais pela Universidade de Miami, esse \u00e9 apenas um dos fatores que podem estar alterando a din\u00e2mica natural da regi\u00e3o. &#8220;Essa \u00e1gua est\u00e1 direcionada para dentro do Bailique, e se soma \u00e0 din\u00e2mica natural do escoamento do rio Amazonas. S\u00e3o mais 3 mil metros c\u00fabicos de \u00e1gua por segundo em dire\u00e7\u00e3o ao Bailique, erodindo \u00e1reas onde a corrente passa mais r\u00e1pido&#8221;, explica Cunha.<\/p>\n<p>Bi\u00f3loga com doutorado em Ecologia, Jana\u00edna Callado diz que \u00e9 muito complexo afirmar que \u00e9 uma coisa ou outra sem dados hist\u00f3ricos. &#8220;Precisamos de pesquisa para entender o que est\u00e1 gerando isso, de respostas baseadas em evid\u00eancias. E n\u00f3s n\u00e3o temos dados de 15 ou 10 anos seguidos, nem mesmo de cinco anos&#8221;, afirma. Para a professora da Universidade Estadual do Amap\u00e1 (UEAP), qualquer pol\u00edtica territorial para o distrito do Bailique ter\u00e1 de se basear em evid\u00eancias cient\u00edficas que orientem onde, como e o que construir. &#8220;Ou sempre estaremos construindo escola onde n\u00e3o \u00e9 para construir, construindo casa onde o rio vai derrubar, como tem acontecido&#8221;, alerta Jana\u00edna.<\/p>\n<p>Ex-governador do Amap\u00e1 por dois mandatos (1995-1998 e 1999-2002), o ex-senador Jo\u00e3o Capiberibe (PSB-AP) acredita que o impacto das \u00e1guas do Araguari diretamente na regi\u00e3o do arquip\u00e9lago est\u00e1 diluindo as ilhas. &#8220;Se voc\u00ea me perguntar qual \u00e9 a base cient\u00edfica que existe, eu n\u00e3o tenho. O que eu tenho bastante \u00e9 experi\u00eancia de vida e se voc\u00ea v\u00ea a corrente de \u00e1gua que passa entre as ilhas, voc\u00ea tem que deduzir que as ilhas v\u00e3o desaparecer, \u00e9 quase imposs\u00edvel manter&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Questionado sobre como o poder p\u00fablico pode atuar para controlar esse processo, Capiberibe \u00e9 categ\u00f3rico: a \u00fanica maneira \u00e9 modificar o modelo atual de consumo e produ\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o tem outro. Na Amaz\u00f4nia, n\u00f3s temos que parar a destrui\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p><i>*Esta reportagem foi apoiada pelo Edital Conex\u00e3o Oceano de Comunica\u00e7\u00e3o Ambiental, promovido pela Funda\u00e7\u00e3o Grupo Botic\u00e1rio.<\/i><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/agencia-estado\/2023\/12\/19\/costa-oceanica-do-amapa-avanco-do-mar-desloca-comunidades-e-desafia-cientistas-e-autoridades.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Publicado no site UOL em 19\/12\/2023<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um lado, o Oceano Atl\u00e2ntico. De outro, o maior rio de \u00e1gua doce do mundo. No meio, ilhas que bailam. Na foz do rio Amazonas, no extremo norte do Brasil, um fen\u00f4meno considerado natural at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s passou a desafiar diariamente a comunidade cient\u00edfica, autoridades e moradores do Arquip\u00e9lago do Bailique. O duelo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1124,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-1377","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1377"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1379,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1377\/revisions\/1379"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1124"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iepalasa.com.br\/omara\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}